De Inverno Comunicação

A internet para uso comercial começou a chegar no Brasil em 1995. Meus primeiros contatos com a rede aconteceram pouco tempo depois, quando trabalhava na assessoria da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná.

Como aficcionado por sons alternativos, minhas primeiras descobertas no lado brasileiro underground do jornalismo musical na world wide web foram o Senhor F, do mestre Fernando Rosa; e o Midssummer Madness, do incansável Rodrigo Lariú. A medida que os anos passaram, outros endereços importantes foram surgindo, mas a maioria se perdeu no tempo.

Mas um deles, surgindo no início dos anos 00 sobrevive até hoje e se tornou uma referência quando se fala de jornalismo independente sobre cultura pop no Brasil, esse ente tão, como dizer…alquebrado, vilipendiado, desacreditado e desvalorizado? (rs): o Scream Yell, do paulistano Marcelo Costa. Ao me deparar com os textos dele e de colaboradores do site, a gente percebia logo de cara que ali se tratava de gente que realmente era apaixonada por música, literatura, cinema, etc que estava fora da visão periférica da mídia hegemômica.

Calhou que Marcelo veio em 2003 para Curitiba para o Rock de Inverno 4 – que acabou sendo cancelado em razão do embargo da casa noturna onde ele aconteceria. Apesar desse percalço, Mac aproveitou a vinda pra conversar com um monte de gente da cena e produzir um amplo e detalhado material jornalístico sobre a produção musical pop, rock da cidade naquele período, material esse que foi publicado simultaneamente no S&Y e no Terra – onde ele era editor de cultura (e que ainda pode ser conferido nesses links:

De Inverno

De Inverno – entrevista com Ivan Santos

O Rock Nacional Renasce em Curitiba

O novo rock de Curitiba em dez discos

A nossa identificação com o trabalho do Marcelo foi imediata, porque assim como nós, ele fazia aquilo, em primeiro lugar, por pura paixão, e em segundo, com zero daquela empáfia de parte da crítica tida como “profissional”, que gosta de cultivar o cinismo e um ar “blasé” de quem já viu tudo, antes e melhor, e por isso, já nasceu velho. Ou de quem gosta de criar hypes forçados e fakes apenas para exercitar seu poderzinho de mass media, hypes esses que são esquecidos no próximo verão.

Ele escrevia desde então (e continua escrevendo) com o coração na ponta dos dedos, como alguém que não só curtia, mas vivia aquilo que ele esta(va) ouvindo vendo lendo, e isso, em um mundo onde se cultua o cinismo como virtude, pra mim, não é pouca coisa.

A prova dos nove é: enquanto a maioria dos novidadeiros vazios vazou (sem deixar saudade), um quarto de século depois o Scream Yell continua aí, e hoje, mais do que nunca, é mais do que apenas mais um site de cultura pop. É uma verdadeira aldeia em volta da qual se formou uma comunidade de amantes da arte que não se guia por algoritmos. Não é à toa que o S&Y formou gerações de leitores e aficcionados por esse pedaço tão presente da nossa vida, que a ajuda a ficar um pouco menos tediosa e árida.

Também houve um tempo em que jornalistas não eram, ou pelo menos não queriam ser notícia. Não sei se era melhor ou pior, mas era assim. Isso fez com que a gente ficasse desaparelhado para esse jogo que hoje é a regra da profissão, onde pululam “influencers”, “blogueiros” e outras figurinhas carimbadas, em um cenário de terra arrasada em que o jornalismo como carreira virou, em muitos casos, subemprego para quem não tem talento pra celebridade ou vendedor de ilusões.

Na real, na minha casa até hoje não somos bons de fazer propaganda sobre si mesmos. Mas seguimos tentando aprender (rs).

Como disse acima, essa comunidade formada em torno do Scream Yell nos levou a conhecer muita gente que alimenta a mesma paixão pela cultura pop daqui do Brasil e de fora. Gente como Leonardo Vinhas, que virou parceiro de empreitadas diversas.

Por isso, é muito legal ver agora que um pouco dessa história chega ao livro com “Eu Nem Queria Dar Entrevista: O Melhor do Scream & Yell – Vol.1” – que está saindo pela editora curitibana Barbante, e será lançado em Curitiba neste sábado na Itiban. Porque o material produzido pelo S&Y ao longo do tempo tem a força da perenidade e do talento de tanta gente e tanto amor envolvido.

E por isso, também, não me surpreende – mas me traz muita alegria e satisfação – que entre as 16 entrevistas selecionadas pelo Marcelo pra esse primeiro compêndio (de muitos) impresso do Scream Yell esteja a entrevista conduzida pela big boss da De Inverno Corporation, Adriane Perin. Porque, mesmo correndo o risco de parecer cabotino, sei bem que se tem alguém que se move por paixão e idealismo – por vezes, quixotescamente, é a Dona De Inverno, como diz o nosso amigo sumido Rubens K.

Fico ainda mais feliz que essa participação se dê com uma entrevista com o Cowboy Junkies. O que me faz lembrar madrugadas sensoriais embaladas pelo “Trinity Sessions” em uma garagem nos fundos da casa verde em Ponta Grossa. Sob os sussuros de Margo e licks iluminados de seu irmão, Michael. O círculo se fecha perfeitamente e tudo quase faz sentido.

Em meio à necessária atenção laboral de um escândalo político e outro dos vários do dia, eu nem queria escrever sobre isso, por sentir que não teria a paz de espírito pra falar algo coerente. E era verdade.

Mas, afinal, como diriam os piratas do Tietê, às vezes a gente faz as coisas só por “prazer estético”.rs

Como já dizia aquela canção da Marielle Loyola, do Cores D Flores: “Nada é por acaso”.

O que importa é aproveitar cada momento como o último (“na verdade…”) e celebrar o amor e a amizade dessa história que agora está impressa definitivamente para além dos nossos corações “meio surdos” e solitários.

Esperamos todos lá sábado (mais conhecido com amanhã), na Itiban.

 

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